sábado, 6 de setembro de 2008



VIRA O DISCO E… TOCA O MESMO

Hipocondríaco

Antunes Ferreira
bois que se exportam, há bois que se importam e há bois que… não se importam. A afirmação é calina de repetida, mas serve perfeitamente para mais este Vira o disco… e toca o mesmo. Porque esta é a estória dum exemplo destes últimos. Mais precisamente o Serafim Malaquias, porteiro, reformado da Função Pública, mas em muito bom estado. Na sua, dele, opinião.

Malaquias tinha casado pela quarta vez, era viúvo praticante, enterrara a Manela, a Julinha e a Lena, tadinhas. Especialista em gravata preta e fumo no braço, já se podia considerar um expert em velórios maritais. Mais correctamente, viuvais. De repente, descobrira a Micas, empregada na Fruta Fácil, FF, frutaria de qualidade, países de origem afixados, como mandava a ASAE.

Ver-te e amar-te foi-obra-de-um-momento. No Registo Civil, de que era frequentador frequente, tão bem o conheciam que já nem lhe pediram o BI. A Micas resplandecia, empunhando, qual Duarte d’Almeida, mas com mãos e calçadas de luvas brancas, o ramo a que alguns chamavam buquê. Vá lá saber-se puquê…

Tinha vinte e quatro risonhas Primaveras, enquanto que o Serafim já ia nos sessenta e muitos. Mas, o Amor não escolhe idades. O apartamento de porteiro, que já albergara a última donzela, a Lena, passou, assim a ter uma nova inquilina – a nova bis Miquelina da Purificação do Ó, para os amigos, Micas.

Especialmente para um amigo, o Necas, motorista afrutado e afortunado, que, na sequência de antigos mimos e carinhos e face à notória diferença etária dos esposos, vai daí continuou a atira-se à fruta micanita que era um vê-se-te-avias. Logo duas semanas depois do casório. Ainda por cima – ou por baixo, à vontade dos leitores. O Malaquias, alertado por alguém, deu-se conta disso.

Raio de sorte. Se três enterros já bastavam, agora vinha este – e dele. Nem pó. Fez-se por desencontrado, ainda que as más-línguas lhe chamassem já, não o porteiro do prédio, mas o corneteiro. Infâmias. Mas, como dizia o outro, vozes de burro não chegam ao… décimo segundo andar do imóvel. Ao décimo ainda vá que não vá.

Um belo dia, depois de a marcar com a antecedência devida na Caixa, foi à consulta do médico de família. Entrou, pediu desculpa do incómodo ao Senhor Dótor, mas queria préguntar-le se ele, médico, achava que ele, Serafim era hipocondríaco. O clínico retorquiu-lhe que, nos doze anos que levava de o ver, nunca lhe notara a mania de ter doenças.

E ele – mas ó sôr Dótor, isto aqui pra nós, a minha mulher anda a enganar-me com outro mânfio. Todos os dias de manhã apalpo a testa e vejo-me ao espelho. Não tenho dores e os cornos nem sequer estão a sair. Será por falta de cálcio?


(Também publicado no www.travessadoferreira.blogspot.com, no www.cariricult.blogpot.com no www.eboraguebi.blogspot.com e no www.novaaguia.blogspot.com

2 comentários:

Anónima Salina disse...

Na sabedoria popular "Olhos que não vêem, coração que não sente!"
A ignorância é um estado de graça.
Chefe, espero mais textos do livro novo.
AS

Amigo taxista
Que raio de conteúdos colocou no seu blogue que o webmarshal do meu trabalho bloqueou o acesso...
AS

isabel victor disse...

Obrigada pela visita e pelas palavras lavradas nas folhas do caderno ...

Tomei nota do livro. Vou procurar


Saudações


iv*